Feeds:
Posts
Comentários

é Natal

hoje foi o meu primeiro dia de trabalho em um asilo. lá moram quase 100 idosos. alguns mais independentes, outros com necessidade de mãos para guiá-los. decidimos começar a colorir o lugar com as cores de Natal. decoramos a porta do refeitório e colamos um anjinho em cada quarto. por último, a árvore. vários olhinhos acompanharam cada enfeite que colocamos. eles davam palpites: “mais em baixo, coloca mais bolas vermelhas a direita, aquele canto está vazio…” abraçamos os galhos com as luzes cheias de cores e embrulhamos alguns troncos com laços douradas. quando acabamos uma senhora chamada Isabel abriu um sorriso tão lindo que eu enchi cada centímetro meu da pele dela. saí de lá como quem tem certeza dos passos. como quem sabe exatamente o quê se deve buscar.

hoje fui procurar trabalho em um asilo que fica próximo a minha casa. já na esquina uma senhora passou por mim de batom vermelho e olhos grudados no céu. na varanda quatro senhoras estavam sentadas assistindo atrás das grades a vida lá fora. uma delas cantava desafinadamente a vida em vários tons. duas conversavam. uma delas olhava pra mim e quando eu retribuí os olhos ela sorriu. embrulhei um sorriso colorido em papel de seda e entreguei a ela. ela gostou, porque sorriu de volta outra vez. eu repeti então o meu presente. assim a gente brincou de balanço, com sorrisos indo e vindo. quando entrei no asilo a primeira coisa que eu senti foi o cheiro. é incrível a capacidade de cada grupo de deixar rastros no ar. lá dentro eu quis passar correndo sem olhar ninguém. entreguei meu currículo, conversei um pouco e fui embora sem conseguir olhar nada por mais de dois segundos. quando pisei na rua molhei a pele ao imaginar que alguém possa viver anos e depois ver a vida passar…

a pulseira que você me deu arrebentou na semana passada. eu a usava porque ela me dava a certeza de que você existia. acontece que pulseiras arrebentam. você também arrebenta? após três meses de volta pra casa lembro de Angola como um tempo distante. preciso ver as fotos pra perceber detalhes que a memória vai abandonando. sinto que estou deixando pra trás, no passado, no meu baú. eu que achava que você seria pra sempre o meu agora. não é fácil determinar o ritmo dos nossos próprios passos. há muitas coisas me puxando, há muita correnteza me sugando pro lado de lá, lado oposto ao vento que me levava até você. eu sigo por medo dos dias que eu não consigo ver. sigo por querer sobreviver nos anos de independência necessária. sigo por várias razões que se eu pudesse rasgaria até tornar ilegível cada parágrafo.

estando aqui não tive como evitar. comprei um celular. comecei a ter vontade de ser encontrada e me sentir procurada. quis também poder mandar letras em horas inesperadas. um aparelho pra trocar sentimentos dentro desse mundo eletrônico. um celular pra eu simplesmente me localizar.

o meu adeus não me preocupa. poderia fechar os olhos agora mesmo e acabar meus dias dentro de um sorriso. vendo aos anos depois dos 50 pouco vividos, só escuto frases mal acabadas de gente que não levou a sério as próprias vontades. por isso não seja leviano com os seus desejos. satisfaça você mesmo.

neste lugar não tem rua. as casas vivem de mãos dadas. por aqui não há portas e quase tudo é convite para uma prosa. nas paredes há janelas, e onde há janela há gente… pra cada casa uma sala com toalhas bordadas. no canto algumas canecas sempre prontas pra receberem o suor de um café. bastou um dia pra eu descobrir que é aqui que o sol nasce primeiro. e ninguém se esconde dele. basta aparecer um detalhe mais claro no céu pra toda a gente sair por aí de enxada e força nas mãos. neste lugar sobra amor… eu nem consegui guardar tudo o que eu recebi.

pro sertão eu trouxe um livro que me salva diariamente, e em dias como hoje, várias vezes em um dia:
Correspondências, de Clarice Lispector.
são cartas que ela escreveu na década de 40, ao menos inicialmente. fico imaginando a delícia de uma caixa de correio a frente de uma casa de antigamente. entre um papel e outro vários dias, completando meses, assustando-se com os anos. e no meio de tudo isso a espera das cartas de amanhã…

o povo daqui sabe viver. o povo daqui sabe amar. estamos preparando uma ação num povoado chamado Lagoa Andada. nós vamos construir bancos debaixo das sombras do sertão. ontem uma mulher ficou dizendo coisas dentro daqueles balões feitos de nuvens. sonhava com o dia em que poderia sentar no banco. e não era qualquer banco. ela queria um grande com espaço para muita conversa. é lindo! o banco acabou se transformando em personagem. as pessoas perguntavam por ele, esperavam por ele… a própria comunidade doou alvenaria, cimento, brita e mão-de-obra. sabe… as pessoas querem muitas coisas, mas precisam que alguém lhes dêem as mãos.

estou em dúvida entre eu e eles. não me permito querer e fico tentando ser o que eles precisam. já não é hora. já passa de meia-noite. tenho vergonha de não querer estar aqui e de não querer pintar o sertão. sinto-me culpada, como se eu estivesse dando as costas para tantas pessoas que precisam de mim. eu achei que não fosse possível me encaixar duas vezes na mesma cama. acho que vou embora… falta definir o quê exatamente eu estarei deixando pra trás. porque ir embora eu já fui várias vezes, de vários lugares. nos meus poucos momentos de privacidade eu me escondo nas noites que virão… será que eu poderia ser eu mesma sem me sentir culpada?

esse lugar desperta desejos simples em mim. queria comprar uma placa e dar um nome pra minha rua, só pra mandar cartas que estimulassem outras. a minha expressão não é auto-suficiente. mandar cartas sem remetente me deixaria aflita com tantas possibilidades de respostas. preciso de um endereço certo e fixo. e o sertão, minha gente, não é só marrom como muitos pensam, é muita árvore, muito mato, muita mão grossa, muita ruga e muita música. eu fico irritada quando vejo os meninos de estilingue na mão. eles ficam procurando asas para matar. eu tento o tanto que posso manter os vôos, mas me acalma lembrar da inocência de uma criança. aí tudo se explica…

Mensagens Antigas »