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a vida começa a dar novos passos do lado de cá. nesta semana eu comecei a minha nova graduação de serviço social. a minha sala é composta somente por mulheres e a maioria tem origem humilde. é como se as pessoas carregassem o berço por onde fossem. o que eu vi na minha sala foi gente querendo mudar a realidade de onde veio, com as próprias mãos. é bonito ver escancarada essa vontade de justiça, de dois pesos iguais. é mais bonito ainda eu poder fazer algo que acredito tanto. a vida está nascendo outra vez. nos livros, nos olhos, nas raízes.

“Hoje eu sei: África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa: enchendo-nos de alma.”
Mia Couto

descobri que não consigo ser tudo aquilo que fui. descobri que ao lado do meu passado eu não consigo ser tão presente. descobri que é muito complicado querer ser simples entre tantos cifrões. falta companhia, falta entendimento e sobra medo. eu descubro coisas diariamente… e diariamente eu concluo o quanto nós fomos felizes há pouco tempo atrás… ainda somos. é verdade. mas aquilo que vivemos vai além de qualquer sensação.

escrevi o texto acima para uma amiga e assim ela me ensinou:

“mas o que seria a simplicidade?” uma amiga alemã me perguntou isso. acho que é tão simples que eu não sei explicar… talvez seja um estado de espírito, etéreo, por isso intocável. talvez seja uma espécie de ética para consigo e para com o outro e outros. talvez não precise de explicação… acredito que já superei o incômodo com os cifrões à minha volta (até pq seria muito complicado viver em NY com este incômodo). o que não acaba é a minha indignação com as injustiças, sejam elas socias, internacionais, econômicas, ecológicas, de gênero, raciais e por aí vai… talvez exista uma dor no mundo com a qual eu não saiba mais lidar. acho que perdi as minhas forças (ou a esperança?). é um ato de coragem assumir nossos medos, pois geralmente são apenas compreendidos por quem sente e aparentam ser uma pequenez do ser. acho que o medo, algumas vezes, pode ser uma aviso da alma e é bom escutá-lo para cuidar mais de si. agora, uma coisa é certa: bom mesmo é superá-lo. foi você que me disse uma vez: “olha, cara, esse negócio de felicidade é muito complexo.” e deveria ser simples, não? mas não é… o passado sempre (ou quase) nos parece ser mais feliz. a lembrança agradável gruda na gente, mas nos esquecemos que no momento em que o passado era presente, também havia qualquer coisa de dor dentro do peito, mas não lembramos (que bom!). esse passado recente que tivemos foi realmente maravilhoso e eu o vejo por fases. tive a fase de olhar para mim e para os outros, mas olhar para o meu ego, minhas características físicas e psicológicas e toda essa coisa que nos faz ser o que pensamos que somos (os hindus diriam maya, ou a ilusão), depois tive a fase de olhar para o mundo, para as feridas dele, de chorar por ele, de brigar por ele, de acreditar que ele poderia ser diferente (embora isso não ausentasse a minha constante busca pelo entendimento de mim mesma) e, por fim, tive a fase de olhar para dentro de mim, mas não para o meu ego, ou para o que eu penso que sou, olhar para o que caetano chamaria “essa coisa que é sua, mas que não é ego, que vem do self grande”. a fase de sentir-me deus, mas não por me sentir poderosa, mas por sentir a calma da perfeição que é o que está dentro de nós mas que é tão difícil de entrar em conexão, tão difícil nos aceitar deuses, perfeitos, sem capas de ego, de corpo, de personalidade. sem a ilusão. apenas um silêncio alegre que vibra perfeição no centro da nossa alma. agora, não sei em que fase estou… os meus dias têm sido confusos. me sinto cada vez mais superficial, rasa. não sei o que está acontecendo, ou talvez saiba e não queira assumir… tenho medo de estar fazendo um movimento reverso depois do tanto que vi, vivi, senti, aprendi. essa minha mania de amar demais ainda vai acabar me matando (ou eu tenho que matar ela antes). vivo como um cachorro atrás do rabo: dando voltas em torno de mim mesma. pior de tudo é descobrir a minha imensa capacidade de me perder de mim. to voltando pra salvador. preciso do calor de minha gente, dos sorrisos, afagos e puxões de orelha. estou sedenta de carinho. sinto falta de compartilhar, de pensar, de refletir, de me expressar… me sinto sozinha aqui… vida à dois é muito difícil…
PS: só você é capaz de compreender esta escrita caótica e desordenada e, por isso, humana…
PS2: amo assim

é Natal

hoje foi o meu primeiro dia de trabalho em um asilo. lá moram quase 100 idosos. alguns mais independentes, outros com necessidade de mãos para guiá-los. decidimos começar a colorir o lugar com as cores de Natal. decoramos a porta do refeitório e colamos um anjinho em cada quarto. por último, a árvore. vários olhinhos acompanharam cada enfeite que colocamos. eles davam palpites: “mais em baixo, coloca mais bolas vermelhas a direita, aquele canto está vazio…” abraçamos os galhos com as luzes cheias de cores e embrulhamos alguns troncos com laços douradas. quando acabamos uma senhora chamada Isabel abriu um sorriso tão lindo que eu enchi cada centímetro meu da pele dela. saí de lá como quem tem certeza dos passos. como quem sabe exatamente o quê se deve buscar.

hoje fui procurar trabalho em um asilo que fica próximo a minha casa. já na esquina uma senhora passou por mim de batom vermelho e olhos grudados no céu. na varanda quatro senhoras estavam sentadas assistindo atrás das grades a vida lá fora. uma delas cantava desafinadamente a vida em vários tons. duas conversavam. uma delas olhava pra mim e quando eu retribuí os olhos ela sorriu. embrulhei um sorriso colorido em papel de seda e entreguei a ela. ela gostou, porque sorriu de volta outra vez. eu repeti então o meu presente. assim a gente brincou de balanço, com sorrisos indo e vindo. quando entrei no asilo a primeira coisa que eu senti foi o cheiro. é incrível a capacidade de cada grupo de deixar rastros no ar. lá dentro eu quis passar correndo sem olhar ninguém. entreguei meu currículo, conversei um pouco e fui embora sem conseguir olhar nada por mais de dois segundos. quando pisei na rua molhei a pele ao imaginar que alguém possa viver anos e depois ver a vida passar…

a pulseira que você me deu arrebentou na semana passada. eu a usava porque ela me dava a certeza de que você existia. acontece que pulseiras arrebentam. você também arrebenta? após três meses de volta pra casa lembro de Angola como um tempo distante. preciso ver as fotos pra perceber detalhes que a memória vai abandonando. sinto que estou deixando pra trás, no passado, no meu baú. eu que achava que você seria pra sempre o meu agora. não é fácil determinar o ritmo dos nossos próprios passos. há muitas coisas me puxando, há muita correnteza me sugando pro lado de lá, lado oposto ao vento que me levava até você. eu sigo por medo dos dias que eu não consigo ver. sigo por querer sobreviver nos anos de independência necessária. sigo por várias razões que se eu pudesse rasgaria até tornar ilegível cada parágrafo.

estando aqui não tive como evitar. comprei um celular. comecei a ter vontade de ser encontrada e me sentir procurada. quis também poder mandar letras em horas inesperadas. um aparelho pra trocar sentimentos dentro desse mundo eletrônico. um celular pra eu simplesmente me localizar.

o meu adeus não me preocupa. poderia fechar os olhos agora mesmo e acabar meus dias dentro de um sorriso. vendo aos anos depois dos 50 pouco vividos, só escuto frases mal acabadas de gente que não levou a sério as próprias vontades. por isso não seja leviano com os seus desejos. satisfaça você mesmo.

neste lugar não tem rua. as casas vivem de mãos dadas. por aqui não há portas e quase tudo é convite para uma prosa. nas paredes há janelas, e onde há janela há gente… pra cada casa uma sala com toalhas bordadas. no canto algumas canecas sempre prontas pra receberem o suor de um café. bastou um dia pra eu descobrir que é aqui que o sol nasce primeiro. e ninguém se esconde dele. basta aparecer um detalhe mais claro no céu pra toda a gente sair por aí de enxada e força nas mãos. neste lugar sobra amor… eu nem consegui guardar tudo o que eu recebi.

pro sertão eu trouxe um livro que me salva diariamente, e em dias como hoje, várias vezes em um dia:
Correspondências, de Clarice Lispector.
são cartas que ela escreveu na década de 40, ao menos inicialmente. fico imaginando a delícia de uma caixa de correio a frente de uma casa de antigamente. entre um papel e outro vários dias, completando meses, assustando-se com os anos. e no meio de tudo isso a espera das cartas de amanhã…

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