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Archive for Abril, 2009

hoje fui acompanhar um aluno da Escola Professores do Futuro (EPF) na prática escolar. é uma disciplina na qual os próprios estudantes começam a dar aulas nas escolas primárias, a fim de se prepararem para a profissão. acompanhei uma aula da quarta-classe, que teoricamente deveria ser composta por crianças de 8 e 9 anos, mas ali elas chegavam até os 12. na quinta-classe a mesma situação: adolescentes de 17 anos estavam na mesma sala-de-aula onde deveriam ter apenas crianças com 9 e 10 anos. isto acontece devido a muitos fatores. a guerra em Angola acabou há apenas sete anos. com o objetivo de se protegerem durante os conflitos muitas pessoas mudaram de país e foram morar no Congo Brazaville, no Congo Democrático e no Zaire. nesse período a busca por proteção atrasou muito o ensino. e quando a paz foi alcançada, em 2002, muitos angolanos retomaram ao país. acontece que algumas escolas não aceitavam o diploma dos países vizinhos e os estudantes precisaram começar tudo de novo. outro problema é a localização das escolas. a distância impede que comunidades que vivem em zonas rurais afastadas tenham acesso a educação. a sáude também tem influência, já que é frequente as pessoas adoecerem por aqui. a própria condição de vida é um fator limitante. o fato de precisarem buscar água para atender as necessidades da casa leva algumas mães a pedirem ajuda dos filhos, no momento em que eles poderiam estar nas salas-de-aula.

por isso acredito tanto neste projeto. a EPF tem reconhecimento do governo e ajuda com mãos e muito suor a reconstrução deste país. e é principalmente a partir da educação que as outras áreas começarão a fluir. a mudança começa mesmo pela tal mentalidade cantada nos refrões de um cantor famoso por aqui: o Afroman. “Mentalidade e, atitude e, comportamento. Tem de mudar…”

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– o que seria do mundo sem as mulheres? quem iria poder lavar as nossas roupas? – falou um professor aos alunos.

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está pesando. a dor do mundo…

começamos ontem uma ação educativa na escola para conseguirmos acabar com os roubos entre os alunos. conversamos sobre o assunto no encontro matinal e a noite pedimos aos estudantes que nos dessem sugestões de como dar fim a esse hábito. na semana passada mais um deles foi roubado e hoje pela manhã o pai veio até a escola para falar com os estudantes. pra tentar preencher com palavrinhas embrulhadas de conselho a mente de cada um. em seguida, nós levamos pequenos pedaços de papel, para que eles pudessem escrever, de forma anônima, os nomes dos suspeitos. fizemos assim porque há ameaças entre eles que os impedem de nos procurar para dizer nomes. os mais citados foram aqueles que nós já tinhamos em mente, mas apareceram alguns alunos que me causaram tremendo espanto. pessoas que eu sinto um orgulho pulsante, que me fazem parar e olhar, só pra admirar.

agora me percebo muito pequena. feito um grão de areia daquele mar que me leva pra um lugar qualquer… vejo os meus meninos dentro do sistema, com tempestades mais fortes do que os pingos que tento levar pra tornar úmido o chão que eles pisam… quanta impotência me pertence. quão pequenina eu sou… mesmo que o espelho me mostre já com corpo e altura capazes de me tornarem facilmente visível. hoje foi a segunda vez que eu chorei em Angola. chorei por percebê-los com raízes capitalistas, com desejos de mãos que deixam escapar os sentimentos. eu que quero mudar o mundo mal consigo transformar aqueles que tens sonhos no quarto ao lado do meu. quanta fragilidade me acompanha.

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– você é religiosa?
– não.
– por quê?
– porque não existe uma religião que eu acredite por completo.
– em África dizer que não se é religioso é muito mau, nem consideramos este alguém como pessoa.
– você não pode colocar os seus valores naquilo que as outras pessoas acreditam. eu acredito em muitas coisas. tenho muitas crenças. a espiritualidade é forte dentro de mim, mas ela não precisa acontecer da mesma forma que a dos outros. cada um vê e sente as coisas de uma forma. e isto não é justificativa pra julgarmos algo como melhor ou pior. são apenas formas diferentes de pensamento.

depois deste diálogo ele se disse convencido e saiu da sala…

por aqui muitos me convidam para ir a Igreja e me perguntam qual a minha religião. eu fico tentando fugir da questão pra não colocá-los de costas pra mim. é que eu não acredito nesse Deus universal. tenho cá dentro de mim algo bem pessoal, que talvez eu tenha usado apenas um desenho diferente pra falar da mesma coisa. acredito em energia. em pensamento. não se trata de um homem olhando por todos nós. é uma força minha, que nasce e morre comigo. depende de mim e vai muito além de mim. está diluída no universo. surge quando a gente abraça uma árvore ou quando escolhe seguir pela direita. existe ali. em tudo que faço, em tudo que movo, em tudo que olho. ignorante é quem pensa que aquela pedra no chão não tem vida. passa e não percebe quantas sensações ela faz acontecer. eu com essa mania de tentar abrir cada vez mais a minha mente me vejo agora com grades de silêncio, por pura necessidade de fazer parte deste grupo que eu me encontro. e há quem diga que há liberdade de expressão!

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era noite. eu estava sentada jogando conversa fora. de repente o céu ficou claro, como se houvesse um encontro de várias estrelas em um canto só. o professor que estava comigo correu e se escondeu atrás da porta. eu não movi nem os braços pra não perder nenhum detalhe. o clarão seguia em alta velocidade no céu, ficando cada vez maior. se esticava como se quisesse abraçar o infinito. empurrou a Lua. pedia espaço. pra depois, em questão de menos de um segundo, acabar-se numa linha invisível, misturada a toda aquela imensidão. continuei parada. esperando a luz voltar. o professor saiu da sala com os olhos de surpresa me perguntando: o que seria aquilo? eu respondi com uma felicidade quase que infantil que era um cometa. e ainda dei um conselho: aproveite e faça um pedido! eu fui logo fazer o meu, cheia de esperança de que desse certo. afinal de contas dizem que os cometas realizam mesmo os nossos desejos. será?

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aluno: eu quero dizer uma coisa, mas tenho vergonha.
eu: que nada! diga! vergonha é coisa que não se deve ter. o que houve?
aluno: não vai ficar chateada?
eu: não. pode dizer. o que aconteceu?
aluno: e se eu dissesse que estou apaixonado?

conversas assim se repetem com muita frequência. eu penso que talvez eles não saibam o que é se apaixonar. ou que talvez eu não saiba o que é uma paixão em Angola. fica eu de um lado querendo um amigo pra me desmanchar nas tardes de domingo e eles do outro com desejos de namorado. de tudo isso resta sempre a solidão… eu e minhas letras de compreensão.

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fios para se brincar de colorir

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