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Archive for Março, 2010

e se perguntas fossem feitas para serem respondidas talvez eu respirasse mais. mas das coisas que quero saber ninguém ouviu falar, ninguém quer experimentar. estou naqueles dias em que quase se vai a beira do precípicio para ter a certeza de que se pode voar. estou prestes a quebrar as minhas paredes e me tornar parte do oceano que me contem. o desespero acontece na linha divisória, que nada divide. é como se eu morasse na fronteira e ocupasse dois instantes ao mesmo tempo. já percebi que não se trata de um lugar ou outro, não é o que eu vejo que altera a ordem das coisas, não tem nada a ver com aquilo que está, que se é. o grande ponto sou eu, a complexidade sobrevive enquanto o meu sangue corre sem saber pra qual direção. e de cá, de lá, acolá, todos tentam me dar uma linha e eu não consigo dar um nó em nenhuma delas. é tudo tão insuficiente, tudo tão controlado. depois que vivi meus dias sem relógio e sem datas de um calendário eu comecei a sentir a liberdade do meu próprio desejo. porque até o desejo eles insistem em compactar, em colocar em caixas cada vez mais padronizadas. mas não dá. os meus desejos não se encaixam em nenhum destes pacotes. das coisas que quero a maior delas é viver. hoje eu sei que por aqui eles não vivem, pelo menos não vivem a própria identidade. não se conhecem, não se percebem, e contraditoriamente usam cada vez mais espelhos. a mim parece um grão de areia a obrigação de seguir uma carreira, de morar em uma casa, de pagar as tantas contas, de usar sapatos, de decorar a sala, de reformar a cozinha, de escolher lençóis, de deitar na cama pra acordar no dia seguinte. a mim parece que isso não seja vida, que isso seja um pacote fechado demais ao ponto de sufocar qualquer ser cheio de poros. me interessa muito mais seguir por aí, sem um objetivo que trace limites, seguir simplesmente, como quem decide o próximo passo depois do último, como quem decide de acordo com o tempo que se faz lá fora, com a direção que os girassóis conduzirem. dá vontade de viver disso. sem nenhum nome, sem ser jornalista, sem ser assistente social, sem ser engenheira, sem ser nada que não simplesmente humana. já não há espaço pra mim em uma profissão. eu não acordo todos os dias querendo as mesmas coisas. há dias que nem quero nada. e eu aprendi a me obedecer, a me respeitar. eu não quero sobreviver de um salário no fim do mês, eu nem quero sobreviver. viver, sim. claro. não daria pro mundo me acompanhar. seria outro mundo. vai sempre me parecer pouco qualquer coisa que eu possa fazer nos limites de um emprego. eu preciso da liberdade do corpo, mente e espírito. sem hora marcada, sem data agendada. é hora de dar voz para a pele, é hora de tomar posse de si mesmo. é hora de viver… você me daria a mão?

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professor,

não foi a primeira vez que isso aconteceu e eu sei, não foi a última. você também sabe muito bem. depois que a sala de aula se esvazia, o quê é que podemos fazer depois? você confirma cada teoria minha e traz outras tantas disfraçadas de nova. eu já chorei ouvindo suas constatações, o que eu nunca fiz foi acreditar que lá fora poderia ser diferente. eu e você sabemos que o preto e o branco não se tranformam em cinza. e para quê serve todo o saber? continuo presa em cima do muro. sou uma só, indivisível, não posso estar do dois lados. e então eu fico lá, em cima do muro, sentada na cadeira da sala de aula, folheando páginas de livros e olhando os outros pela janela do meu quarto. nem frio me deixam sentir, sou cheia de cobertores. e quando eles esquentam demais lá está o ar condicionado pronto para refrescar.

a fuga não acabou. é muita ilusão concluir que se o meu corpo estiver aqui a minha alma também estará. e a alma? nunca mais vi a de ninguém. nem a sua. sábado você me explicou mais uma vez a minha frustração. você falou da prisão das almas, da necessidade de dar um título àquilo que não cabe em um nome. percebo a sua tentativa em estimular o uso do lápis-de-cor, eu mesma usei alguns. mas e depois professor? o quê é que se faz com o depois? até mesmo você vai embora, até mesmo você não aguenta as próprias palavras. você espera que eu aguente ou que algum de nós aguente? professor, de quê vale os meus dias de aluna se quase tudo que aprendo não tem aplicação? será que vale a vida de uma pessoa? de uma única pessoa? ainda que esta pessoa também nunca possa fugir, presa às mesmas grades nossas?

eu não consigo acreditar mais. vejo tantos profissionais, tantas escadas de uma carreira e nenhum trófeu. pouco me importa o nome do meu cargo, a posição da minha empresa e o salário que equivale a isso. um matemático. o quê se pode esperar dele? a solução de uma equação cheia de números? e aí me dizem que é necessário o trabalho dele, assim como o de um físico, de um químico e de tantos outros. acontece que não enxergo o sangue na veia destas pessoas. não entendo como uma fórmula pode ser mais importante que as famílias do nosso sertão que sobrevivem, nem vivem, de água com açúcar. de quê vale um país rico se logo ao lado outro se diz pobre? que fronteira é essa que separa as pessoas? por quê o mundo não é formado por um só país?

por favor, peço que me responda…

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