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Archive for the ‘Moçambique’ Category

“chorais pelos dias de hoje? pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca de paz. mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. porque esta guerra não foi feita pra vos tirar do país, mas para tirar o país de dentro de vós. agora, a arma é a vossa única alma. roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. será mil vezes pior que o passado, pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. e aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. e até os miseráveis serão donos do vosso próprio medo pois vivereis no reino da brutalidade. terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. (…) no final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. e surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. esse canto, sim, será nossos, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo entusiasmo dos namorados. tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. aceitemos morrer como gente que já não somos. deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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“o que queria mesmo era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino. ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. é isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. ainda bem que escrevi, passo a passo, esta minha viagem. assim escritas estas lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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“- o que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?
– nem sei, pai. escrevo conforme vou sonhando.
– e alguém vai ler isso?
– talvez.
– é bom assim: ensinar alguém a sonhar.
– mas pai, o que passa com esta nossa terra?
– você não sabe, filho. mas enquanto os homens dormem, a terra anda a procurar.
– a procurar o que, pai?
– é que a vida não gosta sofrer. a terra anda procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. sim, faz conta ela é uma costureira dos sonhos”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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“eu queria simplesmente adoecer, ansiava uma doença que me apagasse toda a paisagem por dentro. queria receber essa doçura que a doença sempre tem”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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“o velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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“a vida finge, a velha faz conta. no final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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mentira

“- mas por que razão me soltas, então?
– para que vás para tão longe que pareças impossível”.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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