Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Uncategorized’ Category

um só povo

“encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos”.

Juca Sabão

Read Full Post »

é Natal

hoje foi o meu primeiro dia de trabalho em um asilo. lá moram quase 100 idosos. alguns mais independentes, outros com necessidade de mãos para guiá-los. decidimos começar a colorir o lugar com as cores de Natal. decoramos a porta do refeitório e colamos um anjinho em cada quarto. por último, a árvore. vários olhinhos acompanharam cada enfeite que colocamos. eles davam palpites: “mais em baixo, coloca mais bolas vermelhas a direita, aquele canto está vazio…” abraçamos os galhos com as luzes cheias de cores e embrulhamos alguns troncos com laços douradas. quando acabamos uma senhora chamada Isabel abriu um sorriso tão lindo que eu enchi cada centímetro meu da pele dela. saí de lá como quem tem certeza dos passos. como quem sabe exatamente o quê se deve buscar.

Read Full Post »

hoje fui procurar trabalho em um asilo que fica próximo a minha casa. já na esquina uma senhora passou por mim de batom vermelho e olhos grudados no céu. na varanda quatro senhoras estavam sentadas assistindo atrás das grades a vida lá fora. uma delas cantava desafinadamente a vida em vários tons. duas conversavam. uma delas olhava pra mim e quando eu retribuí os olhos ela sorriu. embrulhei um sorriso colorido em papel de seda e entreguei a ela. ela gostou, porque sorriu de volta outra vez. eu repeti então o meu presente. assim a gente brincou de balanço, com sorrisos indo e vindo. quando entrei no asilo a primeira coisa que eu senti foi o cheiro. é incrível a capacidade de cada grupo de deixar rastros no ar. lá dentro eu quis passar correndo sem olhar ninguém. entreguei meu currículo, conversei um pouco e fui embora sem conseguir olhar nada por mais de dois segundos. quando pisei na rua molhei a pele ao imaginar que alguém possa viver anos e depois ver a vida passar…

Read Full Post »

em Belo Horizonte tenho ocupado os meus dias da semana indo em mostras de cinema, festivais de música, peças de teatro, debates, etc. na terça começou a Mostra de Cinema sobre Direitos Humanos na América Latina. por dia são apresentados uma média de quatro documentários acerca do tema. hoje, em especial, assisti um que me impressionou bastante. chama-se Garapa, nome dado a mistura de água com açúcar (produto mais barato do mercado), que é uma bebida usada na tentativa de esconder a fome no buraco mais fundo do estômago. o filme conta a história de três famílias que vivem no sertão do Ceará. a cada dia eles precisam escolher entre o almoço e o jantar, quando é possível se ter um dos dois. a comida se limita principalmente a arroz ou feijão. as crianças são desnutridas. duas famílias contam com a ajuda do Fome Zero, recebendo R$ 50,00 por mês, o que dura cerca de 12 dias. emprego na região é muito difícil. o marido de duas mulheres bebem. um deles vende a pouca comida da casa para saciar o vício. a mulher aceita, pois sóbrio ele é um bom homem. ela diz que ele até varre e limpa a casa. os filhos andam pela terra despidos. sentam em qualquer lugar. um menino de uns sete anos tinha os dentes desgastados. uma das famílias busca água em um rio próximo da casa. leva garrafas e as coloca nas costas do jegue. há um espaço onde uma das famílias faz as necessidades. mas não há latrina, nem privada. faz-se no chão mesmo e depois se recolhe e leva para fora da casa. Robertina é mãe de 11 filhos e não acredita nos metódos anticoncepcionais, pois ouviu dizer que não funcionam. seu marido acha que é responsabilidade dela tomar os cuidados necessários. o corpo dos filhos são marcados pelos mosquitos. uma família ficou sem leite por mais de duas semanas, porque estava na época de carnaval e a empresa fornecedora do alimento não havia feito a entrega.

de tudo isso não há conclusão alguma. a sala de cinema estava cheia… mas fora de lá a vida daquelas pessoas continua a mesma. o impacto das cenas fica guardado na lembrança de cada um, bem distante da realidade…

Read Full Post »

eu só queria amar sem precisar receber, mas tudo que respira e é humano tem necessidades. imagine. eu poder acordar e dar aulas em um dia. escrever um livro no outro. ensinar nos próximos. aprender para sempre. sem ter que escolher. sem depender de salários e ser algo que segue de verdade. pra não ter outro fim se não o amor. gratuito. não trocar poesias por cifrões. dar versos e receber rimas. encher-se tanto a ponto de não conseguir abraçar tudo e transbordar plenitude. comer cada dia de uma terra, deixando a raiz. alimentar pra silenciar o corpo, sem desejos de coberturas tão doces quanto as de caramelo. viver sem a preocupação de quanto valem as minhas ações. já não estão a venda. não cabem em empresas, em organizações, em companhias. cabem no mundo. cabem dentro de um sorriso, mas não entram em uma carteira. eu só queria amar. sem precisar do dinheiro para ir e vir.

Read Full Post »

mostrei para um aluno a foto da minha mãe e ele disse:
– ah! é você!
lindo, né? ele até ganhou um abraço!

Read Full Post »

ontem fizemos uma reunião para avaliar o meu trabalho por aqui. um pouco mais da metade dos dias já se foram e o objetivo do encontro era apontar pontos positivos e negativos do que eu já havia feito. até agora minhas mãos trabalharam assim:

– Projeto Floresta do Futuro
Cadastro de famílias que seriam beneficiadas futuramente, no Buco-Zau
– Projeto Esperança
Distribuição de camisinhas na comunidade
– Projeto Ajuda as crianças
Clube de crianças com aulas de artesanato e teatro.
– Escola Professores do Futuro
Montagem de um jornal sobre HIV, saúde, educação, petróleo e água.
Clube de meninas com aulas de educação sexual
Aula sobre como dar teatro na escola
– Escola Artes e Ofícios
Aulas sobre atualidades (racismo, capitalismo, Afroman)
Organização de brincadeiras
Atividade educativa a fim de terminar com os roubos na escola
Reforma do quadro de avisos
– Atividade extra
Aula particular de informática para uma aluna

desde que cheguei nunca recebi nenhuma crítica e nessa reunião um colega de trabalho falou:
– Débora, você não gosta de encarar desafios. Você prefere as coisas fáceis. Tem que aprender a fazer aquilo que a comunidade precisa e não aquilo que você gosta. Pense sempre que onde você estiver, você será a solução.

cada palavra que ele soltava arrebentava um fio meu. aos poucos eu ia prendendo o ar pra sufocar qualquer reação. minha pele estava quente. eu colocava a palma das minhas mãos e sentia o calor.

quando eu cheguei em Cabinda o meu trabalho inicial era com crianças. porém, depois de algumas semanas eu percebi que eu não sabia lidar muito bem com elas. que eu não gostava da relação professora e aluno quando se tratava de pequenos pedaços de gente. conclui que eu poderia ajudar mais se trabalhasse com adolescentes e adultos e mudei de projeto. para esse meu colega esta alteração foi uma forma de desistência. uma tentativa de trabalhar em algo mais simples.

assim que acabou o encontro eu fui arrumar a mesa e a diretora da escola me perguntou: você está triste? eu nem quis negar e respondi um sim bem completo. foi frustrante perceber os poucos passos que dei. é verdade que caminhei, mas foi uma distância que eu poderia medir com os olhos. este colega de trabalho fez uma avaliação em um papel também. eu colei cada letra na minha parede. pra eu ler até absorver a realidade. de fugas eu já não gosto mais. e é por isso que deixo estampado aqui a minha dor. sem vaidade nenhuma.

Read Full Post »

Older Posts »